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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Ironia do Soneto

Soneto da Ironia

Perceba como é fácil ser prolixo
Aglutinando palavras sem nexo
Criando um significado fixo
Orgulho de se sentir um complexo

Enquanto o leitor se reduz a pó
Acanhado em sua pobre condição
O poeta despeja versos sem dó
Preocupado só com sua posição

Este, no entanto, não é um poeta
Não transcreve sua alma em letra
Essa não é sua genuína meta

Mas afirma que a poesia entra
E destaca-o como fosse uma seta
Quando na verdade ela foge e o enfrenta

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Decassílabos

Violência do campo de gladiadores

Estamos num campo de gladiadores
Do portão das feras vem o leão
Em quatro patas e olhos superiores
Preparando o bote do bicho são

Do outro canto vem um homem armado
Sobre duas patas, com os olhos escondidos
Sufocado entre gritos e gemidos
Não quer morrer como mas um coitado

Estamos entre a fera e o ser-humano
Expostos perante pessoas sedentas
Pelo entusiasmo do torpor mundano

As ameaças penetram nossas ventas
E este espetáculo é apenas um pano
Que encobre nossas questões mais violentas

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Conto em Versos

Porque os motoristas odeiam ter que respeitar pedestres

Está tão quente
Mas tão quente
Insuportavelmente quente
Que os camelos não agüentaram
Sentaram suas duas quentes e peludas nádegas
No meio da rua
Na faixa de pedestres, claro
Porque camelos são bichos polidos

E disseram aos pilotos beduínos
“Daqui nós não saímos
De jeito nenhum
Está quente demais
E o estatuto internacional de respeito aos direitos dos camelos
Especifica que acima dos 40ºC
Camelos urbanos podem paralisar suas atividades
Portanto, irmãos camelos
Unamo-nos!
Vamos protestar contra a exploração dos nossos serviços!”

Quando os dromedários viram os camelos
Sentiram-se no prejuízo
Afinal, o estatuto dos camelos
E o estatuto dos dromedários
È o mesmo
Quer dizer
Quase o mesmo
Os dromedários só têm direito a metade dos direitos
Porque tem a metade do número de covas
“Não seja por isso,
Irmãos dromedários!
Vamos aderir à greve dos camelos
Mas, dada nossa situação desfavorecida pela metade
Sentemo-nos com apenas uma nádega!”

E lá se foram os dromedários
Sentarem-se sobre a faixa de pedestres
Apoiados apenas sobre uma nádega
Nessa posição esdrúxula ficaram
E o número de grevistas aumentou
E o trânsito parou.

Os motoristas
Inconformados
Suados
Bufando
Gritando ao celular
Atrasados para as reuniões
Para os encontros com amantes
Para a viagem
Para o jantar
Para toda espécie de evento que não conta
Com uma greve de camelos e dromedários
Que paralisa as ruas.

A polícia chegou
Os bombeiros chegaram
Logo o jato de água potente
Tentava afugentar os animais
Mas eles gostaram do tal jato
Tamanho era o fervor que incandescia o asfalto
O jato era refresco
Um incentivo à greve
É certo que os dromedários
Já haviam trocado a nádega em que se apoiavam
Começavam a cansar

Mas enquanto eles não cansam
Como tirar os animais dali?
Isso atrapalha a saúde da cidade
Atravanca o tráfego
Quantos problemas!
A polícia não podia apelar para a violência
Porque por mais que fossem incômodos
Os camelos e dromedários estavam
Amparados pelo tal estatuto internacional de respeito aos direitos
O jeito era esperar a segunda nádega dos dromedários
Cansar.

Qual não foi o espanto
Dos motoristas bloqueados
Ao ver as dromedárias trazendo
Almofadinhas?
E limonadas!
E guarda-sóis!
A faixa de pedestres se tornou
Um oásis no meio da rua
O éden dos animais do deserto.

Mas alguém está desaparecido nesta história
Onde estão os beduínos pilotos?
Talvez eles possam resolver o problema
Dos motoristas impedidos de passar
Beduínos?
Beduínos?
Onde vocês estão?
Alguém os viu lá longe
Muito longe
Cansados de esperar,
Compraram patinetes motorizados
E seguiram seu rumo
Os patinetes não consomem água
Não fedem
E não são protegidos por um estatuto
Os pilotos beduínos saíram no lucro.

Já anoitece
E a temperatura já começa a cair
O termômetro já está abaixo dos 40ºC
Acaba a greve dos camelos e dromedários
Os guarda-sóis são desmontados
Os copos de limonada são recolhidos
As almofadinhas também
A caravana parte rumo à cidade mais próxima
Para organizar outra greve
E sair no jornal
Agora os camelos e os dromedários
Principalmente as dromedárias
Querem virar celebridade

E os motoristas
Que não conseguiram passar
Pela faixa de pedestres
Antes do anoitecer
Vão dizer em casa
Que uma miragem
Não os permitiu passar
E as esposas
E os pais
E os chefes
E as amantes
E os namorados
Vão entrar em greve
E estarão protegidos pelo estatuto internacional de respeito aos direitos
Dos que esperam alguém.

Obs: Os cactos não estavam presentes porque foram ao palácio da alvorada exigir um aumento salarial proporcional ao aumento do custo de vida na cidade

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Para dialogar

Beleza e relatividade


- Você me acha belo?

- Não, desculpe.

- Quer dizer que eu sou feio?

- Sim.

- Pelo menos sou um feio bem executado?

- Acho que sim.

- Então é como se eu fosse belo.

- É, talvez.

Para me satirizar

Granja Geneanalógica

Três galinhas poedeiras se contorcem
Esbugalham os olhos, ficam roxas
Postos três ovos, mortas três galinhas

Três
Cadáveres
Penosos

Estateladas no chão em prol dos pintos
As galinhas deram luz aos filhotes
Mas os filhotes sequer veem a luz

Três
Omeletes
Pintados

Dessa história triste vem a moral
As galinhas sem laços familiares
São as que põe os melhores omeletes

Três
Tercetos
Poéticos

Para me apresentar

O soneto de uma eterna procura

A patologia é o que move o mundo
O sentimento de falta impulsiona
O ser humano a explorar seu fundo
E quanto mais busca, menos funciona

Nessa busca o ser se torna rotundo
Fica esférico, reconhece a si
Percebe-se reto e cai em desbundo
Fica Baco como se o mundo risse

Depois do bacanal o ser se acalma
Sereniza, reflete novamente
Olha o mundo como fosse sua palma

Sente-se inserido, informação quente
Não está completo, mas está com alma
A patologia é o que move a gente

Para começar

Meta-Poesia

Na verdade é muito simples
Se a poesia não começa
Então ela não termina